Se antes os loteamentos eram projetados como uma extensão
natural da malha urbana, hoje o mercado aposta em um modelo mais complexo e
multifuncional. Impulsionado pela regulamentação dos condomínios de lotes e
inspirado em empreendimentos norte-americanos e europeus, o setor passou a
desenvolver projetos que vão além da simples oferta de terrenos, incorporando
áreas de lazer, serviços, segurança e infraestrutura voltadas à qualidade de
vida.
Essa transformação, segundo especialistas, também acompanha
uma mudança no perfil dos compradores. Muitos empreendimentos inicialmente
planejados para servir como segunda residência, voltada ao lazer e aos fins de
semana, passaram a ser ocupados como moradia principal, refletindo as
possibilidades viabilizadas pelo trabalho remoto e pela busca por mais espaço e
contato com a natureza.
Esse será um dos temas do Fórum Estadão Loteamento
Urbano 2026, que ocorre na segunda-feira, 3 de agosto, em São Paulo, em
parceria com a Aelo. O evento será transmitido online pelas redes sociais
do Estadão. Mais informações e inscrições no site https://forumloteamentourbano.com.br/.
No Estado de São Paulo, o mercado de loteamento manteve um
ritmo elevado de lançamentos nos últimos anos. Nas 81 cidades monitoradas pelo
Secovi-SP, foram lançados 39.338 lotes em 2018. O volume ultrapassou a marca de
50 mil em 2019, com 50.710 unidades, recuou durante a pandemia, para 44.594 em
2020, e voltou a crescer nos anos seguintes. No primeiro trimestre de 2026, o
levantamento contabilizou 7.297 novos lotes.
Diante desse cenário, o arquiteto e urbanista João Fernando
Pires Meyer, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP), diz
que o planejamento urbano brasileiro está passando por uma mudança de
paradigma, trocando o antigo modelo de “mero fracionamento de terra para
vender” pelo que ele chama de “novo urbanismo”. “A ideia é trazer para dentro
do bairro serviços, praças, áreas institucionais a uma distância caminhável das
casas. Isso envolve criar fachadas ativas para que as pessoas possam andar
pelas calçadas”, afirma Meyer.
Acesso à cidade em 15 minutos
A lógica de privilegiar o pedestre está alinhada ao conceito
da cidade de 15 minutos, idealizado pelo urbanista franco-colombiano Carlos
Moreno, que parte da premissa de que os serviços essenciais à qualidade de vida
devem estar acessíveis em um deslocamento nesse tempo.
Em entrevista ao Estadão, no ano passado, Carlos
Moreno disse que as cidades se tornaram essencialmente lugares de grandes
distâncias e o automóvel ocupou massivamente o espaço público. “Nos tornamos
homens e mulheres centauros, metade humanos e metade carros, e perdemos a noção
do tempo útil da vida familiar, de vizinhança. Queremos, com a cidade de 15
minutos, ter um urbanismo social, de escala humana, de proximidade”,
afirmou.
“Trata-se de romper com as longas distâncias, as cidades
convertidas em pêndulos gigantes. Simplesmente, queremos que, em todo lugar,
tenhamos acesso a serviços que dão uma melhor qualidade de vida. Não somente
alojamento: comércio, cultura, educação, cuidados médicos, espaço público,
lugares para divertir-se, lugares para as crianças, para que as mulheres
estejam em segurança, e intergeracionais.”
Parques e soluções baseadas na natureza
Outra demanda do mercado é a presença de parques e áreas
verdes nos loteamentos, além da incorporação de soluções baseadas na natureza
aos projetos como “infraestrutura verde”, entre elas, o uso de jardins de chuva
e pisos impermeáveis. Segundo Meyer, a presença de uma profusão de parques e
áreas verdes tornou-se a característica mais importante e uma exigência prática
do mercado para os novos loteamentos, funcionando como o principal elemento de
valorização.
Modelo segrega ou fomenta a convivência?
Embora o urbanismo contemporâneo tenha evoluído para
privilegiar o pedestre, reduzir a dependência do carro e estimular o uso dos
espaços públicos, não significa, necessariamente, maior diversidade na
convivência entre diferentes grupos sociais. O engenheiro civil e especialista
em desenvolvimento imobiliário e turístico Caio Calfat afirma que um bom
projeto urbano busca justamente “empurrar” as pessoas para fora de casa,
incentivando a ocupação dos espaços públicos e priorizando os deslocamentos a
pé.
Fonte : Terra Economia

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